É inegável que o Pearl Jam é uma das bandas em atividade na cena musical mais influentes
dos últimos vinte anos. Em seu décimo
disco, se mantem fiel, acima de tudo, a si mesmos. Eu sei, todos já conhecem “Black”,
todos já pularam ao som de “Even Flow” e, no mínimo, arrepiaram-se ao ouvir os primeiros acordes de “Alive”. Mas, no decorrer dos anos,com a
carreira planejada de forma independente e espontânea, o Pearl Jam tornou-se
numa banda atemporal no mundo musical.
Apesar de ainda ser relacionada em um primeiro momento e aos mais desavisados com a tal “cena grunge”, um
olhar mais atento a carreira dessa banda de Seattle dirá que eles já se livraram há muitos anos desse rotulo
.
O tempo entre Backspacer e Lightning Bolt é um dos mais
longos na carreira de Pearl Jam, pouco mais de quatro anos. Esse período, no
entanto, foi de grande atividade para cada um de seus integrantes, além da
celebração coletiva de vinte anos da banda, que gerou um documentário oficial,
o PJ20. Posteriormente, cada um tomou seu rumo e ocupou seu tempo criativamente
em outros projetos. Eddie Vedder, por exemplo, embarcou em carreira solo com seu disco de estreia,
Ukulele Songs, de 2011.
Diante dos trabalhos paralelos dos integrantes da banda, a
impressão que dá é que os quatro anos sem se trancarem no estúdio durou bem
mais. O resultado é que os quatro integrantes, acrescido de Boom Gasper(piano),
entraram no estúdio no momento ideal e se focaram em produzir o melhor disco,
como o próprio Vedder afirmou na época do lançamento em entrevista à Rolling
Stone.
Com Lightning Bolt lançado em outubro de 2013 a
banda volta a arriscar um pouco mais e
explora novos territórios, embora sempre
com um pé em solo seguro. “Pendulum”, sombria, com o piano criando o ambiente.
O ritmo, no entanto, lembra um pouco “Parting Ways”, de Binaural. Melodia muito
bonita, com Vedder mais uma vez com a voz impecável.
A banda continua
explorando e experimentando novos sons, para desespero dos “grungeiros”. Após a
experimentação, Pearl Jam volta para a zona de conforto com a mediana e correta
“Swallowed Whole”, bem a cara de composição de Eddie. Mas logo em seguida volta
a ter ingredientes novos e inesperados, como em “Let The Records Play”, com uma
pegada bem blues, coisa que Pearl Jam
não havia experimentado ainda, seguimos com “Come Back”,balada lenta também com
uma levada blues.
“Sleeping By
Myself”, embora não seja totalmente inédita, já que figurou em Ukulele Songs,
de Eddie Vedder, ganha aqui uma nova roupagem com a banda completa, inclusive,
bem country. Ainda assim, no final Eddie ainda empunha seu ukulelezinho de
sempre. O clima acústico guia as duas faixas finais, com “Yellow Moon”, misturando
com um solo de guitarra bem intenso, embora curto, e “Future Days”, basicamente
Eddie, seu violão, e uma base de piano, também tem a letra mais positiva do álbum.
Lightning Bolt é, por fim, mais um grande registro de uma
ótima banda que já superou essa polêmica de tentar fazer um novo Ten ou Vs. É
notório que eles estão preocupados apenas em fazer boa música e criar novos
sons para comunicar sentimentos. E esse é o espírito da coisa.
Na musica brasileira em geral, são muito raros os casos que
driblaram a barreira lingüística e lançaram trabalhos relevantes, O álbum em questão surgiu não apenas como
antídoto a essa tendência, mas também como uma obra FUNDAMENTAL do rock brasileiro.
Dor. Muita dor. Nem tanto aquela que parece dilacerar a carne, mas
principalmente aquela que queima o coração como um ferro em brasa e carboniza o
amor despedaçado.
Há quarenta anos, Arnaldo Baptista colocou tudo isto para
fora em um álbum que soa desconcertante e atual até os dias de hoje. Era seu primeiro disco
solo, já fora dos Mutantes. Lóki ? era o sinal de que ele precisava de ajuda
para sair de um furacão de delírios lisérgicos e paranoicos com relação a uma” invasão extraterrestre” e a
dor, aquela dor, causada pela perca que ele acreditava na época ser a musa e
amor de sua vida; Rita Lee. Mergulhado na depressão, Arnaldo era a
personificação da angustiante incerteza de continuar a viver.
Gravado em terríveis condições emocionais, após sua saída
dos Mutantes, o álbum conta com a participação de três ex-integrantes (o
baterista Dinho, o baixista Liminha e Rita Lee nos backing-vocals. A gravação feita às
pressas nos proporcionou uma pegada inigualável e, dado seu estado emocional,
Loki? acabou por ser o maior legado existencial do rock brasileiro.
Arnaldo mostrou o que
significa amar até perder a própria identidade , buscar por paraísos
artificiais a partir da desintegração da alma e usos de drogas, percorrer os porões proibidos
dos sentimentos, dar vazão aos abismos da alma e anunciar os esboços da morte, mesmo
não consumada. Nessas “previsões”, ele já parecia estar ciente de seu destino consumado
por uma tentativa de suicídio em 1980.
Se, literalmente, (ao expor sentimentos) ele provou genialidade, no nível musical nada
deixou a desejar musicalmente ; ou seja, a partir de sua voz arrancada “do
estomago” e de um sensível piano clássico, ele percorre o rock de forma
eclética com maestria, indo das mais tristes baladas até o rock progressivo , passando por bossa, jazz,
funk e blues.
Em cada faixa, Arnaldo dilacera a alma, exibe uma mente já perturbada
e sem esperança. Um espírito já imerso na solidão, alucinadamente triste. Tudo
basicamente temperado a piano, voz, baixo e bateria acompanhado por seus ex-companheiros de Mutantes. NADA DE GUITARRA . Só uma salada de
rock, bossa nova, samba e MPB desgovernada.
A primeira faixa do LP, a linda balada "Será Que Eu Vou Virar Bolor?",
usando o título como tema, traça ironicamente um paralelo entre o futuro de seu
amor e o da música , ambos “ameaçados de extinção”. A seguinte "Uma Pessoa
Só", remonta a um sonho coletivo.
"Não Estou Nem Aí" é balada com ares jazzísticos em que, sombreado
pela (im)possibilidade de esquecer os "males", ele desafia a morte de
forma sarcástica. Em "Vou Me Afundar na Lingerie", um “blues pop” de
primeira ele instala a evasão absoluta
do mundo real. A instrumental "Honky Tonky" é um delicioso mergulho no
piano.
"Cê tá Pensando Que Eu Sou Loki?", desbanca a
loucura, mas não exime “o prazer alucinógeno”. Na balada ,”Desculpe “que desvenda a angústia passional de uma pessoa atormentada pelo ciúme. "
Na fragmentada "Navegar de Novo” desvenda
sua particular passagem das horas e dimensões (im)possíveis do tempo. Em "Te Amo, Podes Crer", uma balada de
amor que encarna o pranto de uma pessoa abandonada
e revela: "Dentro de algum tempo
eu paro de tocar/espero o apocalipse de então eu te encontrar", um verso
que resumiria profeticamente seu futuro. Fechando, a folk-psicodélica "É
Fácil", síntese de um amor
absoluto.
Se hoje sua obra é mítica, saiba que Arnaldo pagou muito
caro por toda essa paixão,que foi levada às últimas consequências. Emoções,
lucidez (e a falta dela) e solidão formam algumas passagens do que significa “Lóki?”.
Somos entregues a um comportamento visceral, tão doído quanto raivoso, o que coloca
o disco em um pedestal sem igualdade. Dor e angústias podem ter diminuído, ou até passado. Mas o
peso e a inspiração do álbum formaram uma das obras mais instigantes da música
brasileira.
O disco “Selvagem?”, d’Os Paralamas do Sucesso, lançado em
1986, não é um disco qualquer. Não pode ser colocado no balaio dos grandes
sucessos do Pop Rock brasileiro, tomando-se por base apenas seu marco
comercial. Ele vai além do sucesso de vendagem, afinal vendeu muito – mesmo
oferecendo algo novo, diferente. Não era o mais do mesmo, era algo novo, era
uma aposta, era um risco fazendo o que poderia não ter feito: sucesso.
Em “Cinema Mudo”, de 1983, e “O Passo do Lui”, de 1984,
Herbert Vianna (vocal e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria),
muito jovens, com pouco mais de 20 anos, já mostravam todo seu potencial, tanto
no que se refere a fazer legítimos hinos pop – como “Vital e sua moto”, “Meu
Erro” e “Romance Ideal” – quanto nas referências a ritmos jamaicanos – vide a
própria “Cinema Mudo”, “Ska”, “Óculos” e “Assaltaram a gramática” –, o que
mostrava uma peculiaridade muito especial nos três. Embora o grupo de canções
que fugiam da lógica pop fosse, até o momento, bem menor, já dava ares das
novas perspectivas do grupo. Mas por que mudar, se estava tudo indo tão bem? Aí
entra em cena, em 1986, o disco “Selvagem?”, reflexo direto do amadurecimento
da banda.
Em 1985, com o fim institucional da ditadura e a abertura
política os ares eram de novidade, de esperança, de mudança. Para os Paralamas,
era um ano igualmente movimentado. Logo em janeiro, se apresentaram na primeira
edição do Rock in Rio, participação que foi fruto do sucesso dos dois primeiros
discos. O show foi muito bem recebido pela crítica e pelos fãs. Nos meses que
se seguiriam Os Paralamas sairiam pelo Brasil se apresentando em uma turnê bem
sucedida. Também em 1985, Os Paralamas do Sucesso vão para a Europa, para
alguns shows nos países “costumeiros” de toda turnê internacional. Contudo, o
retorno do trio é bem diferenciado dos outros artistas que estiveram juntos na
viagem. Antes de voltar ao Brasil, eles passam por alguns países da África e
também pela Jamaica. As viagens pelo terceiro mundo, um lugar de gente negra e
pobre, pareceu muito familiar aos diversos cantos do Brasil visitados pelos
músicos em sua turnê nacional, também em 85. Além disso, em 1984, a banda já
havia feito os shows de abertura da turnê brasileira do jamaicano Jymmy Cliff.
Tudo isso somou-se e, em 1986, veio “Selvagem?”, onde pesou a responsabilidade
típica de quando se faz o que se está afim de fazer, não com falta de
compromisso, mas, sim, sem respeitar as amarras do mercado fonográfico.
Dizem que quando foi apresentado à banda o riff de guitarra
que viria a ser “Alagados”, Bi e João acharam aquilo com cara de samba-enredo.
E isso é ruim? Não, eles adoraram. “Alagados” abre o disco avisando logo de
cara que as próximas horas serão bem diferentes. E boas.
O cunho social da
letra, muito evidente, é em partes fruto do período que Herbert estudou no Rio
de Janeiro e atravessava de ônibus diariamente a Favela da Maré. Depois, já
como uma banda de sucesso, conheceram Salvador, capital da Bahia e onde fica
Alagados, região periférica da cidade. Um pouco mais tarde, com ainda mais
sucesso na bagagem, conheceram Trenchtown, uma favela jamaicana nos subúrbios
de Kingston, capital da Jamaica e local onde nasceu Bob Marley. O Brasil, dessa
forma, parecia muito mais com a Jamaica, embora muitos tentassem e tentem até
hoje negar. São “os filhos da mesma agonia”.
O clipe da música, ousado, confirma tudo isso. O viés popular da vida
nas grandes cidades, em ritmo dançante que lembra o samba, convida a todos para
cantar as amarguras. Quando o refrão, com break, é sustentado pela batida de tamborins,
a evidência grita.
Na sequência vem “Teerã”, ska de características clássicas
(assim como muitos outros que virão adiante no disco). A letra faz referência à
capital iraniana e principalmente à guerra entre Irã e Iraque (1980 – 1988). O
processo traumático que representa uma guerra, principalmente para os civis, é
retratado na figura das crianças e o futuro de Teerã. A terceira faixa é “A
Novidade”, com letra de Gilberto Gil, que também canta em “Alagados”. O refrão,
que é até hoje muito popular, faz menção, novamente, aos desiguais do Brasil. A
literalidade forte diz tudo, dispensa explicações: “Oh mundo tão desigual/ Tudo
é tão desigual/ De um lado esse carnaval/ Do outro a fome total”.
A quarta música é uma composição de João Barone e Bi
Ribeiro. “Melô do Marinheiro” dividiu com “Alagados” a preferência nas rádios
em um processo espontâneo. Os fãs gostaram dela, pediram nas rádios e a
colocaram para tocar. Não tomou espaço da música de trabalho. Popularizou-se de
forma instintiva e virou mais um dos hits do disco. “Marujo Dub”, como o nome
já diz, é um Dub baseado na música anterior, o primeiro do disco que, corajoso,
já apresenta de cara dois dubs brasileiros às rádios. O segundo é “Teerã Dub”,
a última faixa do disco e, igualmente, uma versão de “Teerã”. Os ecos e efeitos
na voz saturada, típicos do Dub, assim como a “cara” de remix e a evidência do
baixo e da bateria acompanham ambas as faixas. Corajosos e arriscados, os dois
dubs são um dos vários marcos do disco.
A sexta faixa é “Selvagem”, música de conteúdo até hoje (quase
trinta anos depois) assustadoramente
atual. Nela a letra apresenta, novamente, uma crônica da vida no Brasil e as
armas que cada casta dispõe em mãos. Com riff marcante, o mais pesado do disco,
Herbert canta sobre a polícia e sua tentativa incansável de manter tudo em seu
lugar, custe o que custar. O governo, por sua vez, com seu falatório vazio e
seu controle absoluto do poder, construído na base da enganação, mostra a cara
de suas armas. Em “E a liberdade cai por terra aos pés de um filme de Godard”,
faz-se referência à censura imposta pelo governo Sarney ao filme “Eu te Saúdo,
Maria” de Jean-Luc Godard. Na sequência, a cidade apresenta suas armas na forma
de mendigos e meninos de rua, enquanto os negros “a esperteza que só tem quem
tá cansado de apanhar”.
“A Dama e o
Vagabundo”, a primeira música do disco que traz como tema um relacionamento
amoroso. O, porém está no caráter desse relacionamento, que, apesar das
diferenças, dá certo. A oitava música é “There’s A Party”. Cantada em inglês, é
a que mais se aproxima do pop rock dos dois primeiros discos. Com pouco mais de
dois minutos, é a música mais curta. “O Homem”, nona música do disco, apresenta
como temática o conflito interior de cada um, colocando em cheque a costumeira
dualidade da vida. Questiona o bem e o mal e canta, nenhuma doutrina mais me
satisfaz.
A última música do
disco – afinal, “Teerã Dub” não foi incluída na versão original em LP – é uma
regravação de “Você/Gostava Tanto de Você”, clássicos de Tim Maia. Sucesso
garantido em um reggae que encerra a boa novidade que foi “Selvagem?”.
Definido o lado conceitual do disco, que já vinha sendo trabalhados
nos meses finais de 1985, Os Paralamas do Sucesso chamaram Liminha –
ex-baixista dos Mutantes e produtor de alguns dos mais aclamados discos do rock
brasileiro – para trabalhar a parte técnica. Pelas mãos de Liminha passaram
também algumas das segundas guitarras presentes no disco, assim como alguns
teclados. Estava garantida a referência técnica da produção, afinal, a
experimentação com os novos gêneros musicais deveria estar em excelente
qualidade sonora, bem mixada e produzida. Liminha deu conta do recado. Entraram
para as gravações em abril e não demoraram mais que um mês para terminar.
Para
a capa do disco foi escolhida uma foto do irmão de Bi que estava colada na
parede do local de ensaios. Nela, o jovem Pedro aparece sem camisa, usando-a ao
redor da cintura, como uma saia, e segurando um “cajado”. Um índio meio
estranho em um dos muitos acampamentos ainda com turma de Brasília, onde Bi e
Herbert se conheceram. A estranheza fica completa com o ponto de interrogação
que é acrescentado e pergunta: Selvagem?
Em junho de 86 Selvagem? Estava na praça e o resto é
história.
Passado o ano de 1986 e todo o sucesso do disco “Selvagem?”,
Os Paralamas do Sucesso foram, gradativamente, nos álbuns posteriores mergulhando
ainda mais nas referências jamaicanas e caribenhas.
Era grande a expectativa para esse novo álbum dos Titãs.
Álbum que segundo a própria banda seria
uma volta ao Cabeça Dinossauro e ao
bom punk rock que os Titãs sabem fazer também, talvez não com a mesma fórmula,
mas sim com a mesma atitude e essência. Isso me instigou a procurar informações
sobre o décimo quarto álbum da banda e o que esperar dele – a capa; obra sobre
a Torre de Babel, que segundo o Antigo Testamento (Gênesis 11,1-9), torre
construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar
seus nomes. A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba
provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os
espalhou por toda a terra. E o título, “Nheengatu” foi esclarecedor. Língua
criada pelos jesuítas para unificar a linguagem indígena assim que chegaram ao
Brasil. O conceito do álbum refletiu totalmente o estágio em que nosso país
está vivendo, nas palavras do próprio Titãs – “Uma tentativa de fazer uma foto
instantânea do Brasil atual, as duas ideias se contrapõem bem: uma palavra (e
uma linguagem) de entendimento para tentar explicar um mundo de desentendimento”.
Vamos a primeira faixa, “Fardado” cumpre a promessa. É suja,
é pesada, é uma típica música de protesto para abrir o álbum...
Seguindo no disco, temos a ótima “Mensageiro da Desgraça”
música um pouco mais difícil de assimilar, assim como as outras músicas
cantadas pelo Miklos. As letras dele, em geral, são mais metafóricas e
reflexivas, diferente das do Sérgio, que são mais "dedo na cara" e as
do Branco, que brincam sempre com contradição e descrição.
“Nheengatu” segue em sua vibe suja, decadente, corrompida e
politizada. “República dos Bananas". Um ska, mais pesado que um ska comum, mas
mais leve do que as duas primeiras músicas. Remete quase diretamente ao som
criado pela banda na época de “Cabeça Dinossauro”.
“Fala Renata” com uma letra incrivelmente simples, pode ser
interpretada como uma crítica à futilidade das conversas das pessoas. Pesada em
sua essência, tem uma seção no meio de um solinho de teclado onde a levada
lembra até um, sei lá, forró. Também tem uma sonoridade muito própria e ao
mesmo tempo lembra a sonoridade dos álbuns mais antigos da banda.
“Canalha” do Walter
Franco, é aqui regravada em um ambiente mais 'clean' e como a original apresenta
a soturnidade necessária que a faixa pede ,destaque para as guitarras. Os vocais carregam um nível de dor e
descontentamento na medida certa. Ótima faixa, casa muito bem com as canções autorais
do álbum, e é uma excelente ponte entre “Cadáver Sobre Cadáver” e “Pedofilia”.
“Pedofilia”, aliás, talvez tenha a letra mais forte do álbum.
É explícita, contendo os argumentos de um pedófilo em um vocal semi-sussurrado,
mas com um vocal rasgado no refrão, um experimentalismo no meio, uma faixa foda
– o peso do punk- rock dos Titãs vêm a tona nessa faixa.
“Chegada ao Brasil (Terra À Vista)” segue, em ritmo com um
ótimo baixo na condução da música. A letra suja ironiza os nossos próprios estereótipos.
“Flores Pra Ela” é
fantástica (letra e música), fodamente direcionado aos machistas de plantão que
acham que a vida de uma mulher deve ser regrada ao seu bem-querer, mandos e desmandos.
Prestem atenção nessa faixa.
Como não podia deixar de ser, em um álbum tão controverso,
sobram também críticas a instituições religiosas em “Senhor”. É a indústria e o
comercio da fé. Nos tempos atuais a salvação está em qualquer esquina, nas mãos
de qualquer um, fazendo os mais humildes entregarem o que tem, em nome de um senhor
(com ‘s’ minúsculo) que desconhecem.
O álbum encerra com “Baião de Dois” e “Quem São Os Animais?”
da mesma maneira que começou: tecendo críticas ao atual sistema de vida que nos
são impostos, os preconceitos que de antemão são enraizados na nossa cultura.
“Quem São os Animais?”, uma música que até parece mais leve
que as outras 13, mas a letra mostra um tema atual como nunca. Racismo,
homofobia, preconceitos em geral, proferidos pelos ditos seres
"racionais"... no fim a gente para e pensa, quem são os animais?
Cheio de criticas sociais, contestador “Nheengatu” pode até
soar panfletário nos dias de hoje, em meio a tantos protestos. Mas quer saber?
Foda-se. Nheengatu é um álbum que traz de volta a essência do rock.
Pesado, sujo e direto com rock/reggae/ska .
Nheengatu é isso, é porrada, letras pra fazer a gente
pensar. Mescla de” Domingo”,” Cabeça Dinossauro” e “Titanomaquia” na receita. Titãs
como não se via há muito tempo. Mesmo com metade do time, mostraram que o pulso
ainda pulsa.
Até o fim colecionou indicações a prêmios para o seu único
ator em cena, Robert Redford, e todo e qualquer prêmio a que tenha sido
indicado/ganhado , foi merecido.
O filme começa com um monólogo em tom de despedida e
um objeto flutuando no meio do mar de Sumatra. A trama volta para oito dias
antes e estamos com um envelhecido e fora de forma Robert Redford dentro do seu
veleiro, que se chocou com um contêiner flutuante perdido de algum navio de
carga e está com um rombo no casco. A água está invadindo o barco aos poucos,
danificando muitos objetos de comunicação, e o contêiner está preso ao buraco
que abriu na embarcação.
Sozinho, o personagem consegue desgarrar o barco do objeto
mas há milhares de problemas que ainda estarão por vir: o buraco precisa ser
selado; ele está incomunicável no meio do oceano sem saber para onde está indo
e travará uma batalha pela sobrevivência – que parece estar perdida de antemão
– quando o veleiro é atingido por uma tempestade que se aproxima. Com o
naufrágio do barco, o personagem ficará ainda mais perdido no mar, dentro de um
bote salva vidas, enquanto é castigado pelo sol e pela força da natureza. À
medida que o filme avança, vão se esvaziando todas as esperanças – incluindo a
dos espectadores estarrecidos -, a começar com a falta de água potável, a falta
de comida, o cerco dos tubarões ao bote e com todos os perigos que o mar
oferece. Pior: vibramos com a chegada de dois navios por perto, mas o
personagem é invisível às embarcações que trafegam pelas rotas próximas e está
se afastando cada vez mais delas.
Filmes de náufrago não são novidade no cinema. A diferença é
que aqui praticamente não há diálogos (após o monólogo inicial, o segundo
diálogo só vem vinte minutos depois com um pedido de socorro e em seguida, a
próxima palavra só será proferida a partir de uma hora) o que faz o filme se
aproximar mais do” Náufrago”, com Tom Hanks, no seu desenvolvimento, do que de
outros filmes – com a diferença que aqui não temos uma bola de vólei como
companhia para o martírio do personagem.
Com uma trilha sonora excelente e eficiente, Até o fim traz
uma direção bem calibrada mas que não teria o impacto que tem sem a afiada
atuação de Robert Redford, que segura o filme do começo até o final. É uma das
melhores atuações de sua carreira, sem dúvidas. Apesar de praticamente não
falar, Redford consegue passar sua agonia e desespero com grande verdade, seja
nas rugas da idade ou na expressão de resignação, seja no seu esforço físico
visível ou na fisionomia de quem não aguenta mais lutar. O fato de estar velho
parece adicionar, aliás, um fator importante à trama: toda a atividade no
veleiro exige um esforço monumental, como mostrado na luta contra a tempestade
que o leva facilmente a exaustão – e quase o mata. Assim, para sobreviver, ele
precisa brigar não apenas com a natureza, mas com o destino trágico que o
cerca, com o acaso, com a imprevisibilidade do mar, com a solidão, com a
própria embarcação que está agonizando prestes a afundar – e, claro, com seu
próprio corpo -, o que faz de sua jornada um completo exercício de superação.
O paralelo com o sucesso de 2013, Gravidade, é inevitável.
A essência dos personagens, é a mesma.
Se temos na ficção espacial Sandra Bullock perdida na solidão do espaço e
desesperada para voltar para casa, aqui temos Redford perdido no meio do
oceano, igualmente sozinho e em condições desesperadoras. Qualquer uma das duas
situações é aterradora. Ambos aprendem, improvisam, pensam em desistir, contam
com um pouco de sorte de última hora, mas, movidos pela fé ou por uma força
maior, seguem adiante.
São filmes que nos revelam surpresas sobre o espírito
humano, nossa coragem, força, luta e superação dos nossos próprios limites.
Aqui o roteiro limpo e simples se sai um pouco melhor nos detalhes do que no
filme de Sandra. Ele não usa o personagem para explicar a plateia o que ele faz
em cena com palavras – ele traduz tudo em imagens muitas vezes silenciosas,
melancólicas, num trabalho extremamente peculiar. Reparem: ao perceber a falta
de água, ele improvisa; ao ver um navio se aproximar, ele se revela
esperançoso
em uma fisionomia, que se desfaz logo em seguida ao perceber que não é notado
na imensidão azul; o monólogo do começo vira a carta dentro de um pote para
quem a encontrar, já que é o momento em que o personagem está entregando os
pontos, etc.
Há um ou outro ponto baixo – como no momento em que ele está
no bote salva-vidas durante uma tempestade e a confusão da montagem é tão
grande que não dá para entender o que está se passando com o personagem. E o
final, sem epílogo e meio abrupto, pode não agradar e não ser unanimidade entre
os espectadores.
No final dos anos 70, o punk era um estilo popular, mas ao
mesmo tempo era rejeitado pelos
"entendidos" de música. Aliás, tradicionalmente falando, sempre foi
assim. O hard rock farofa dos anos 80 também era massacrado, bem como o grunge
na década seguinte.
O argumento de quem não gostava do gênero, era a falta de
criatividade do punk que sempre se resumia em três ou quatro acordes e em
alguns casos até o fato de empresários dizerem o que a banda deveria tocar e
como ela deveria agir.
Provavelmente por causa dessa herança, o Clash, que já havia
lançado dois discos até então, optou pela liberdade de escrever o que quisesse
e tocar suas músicas como bem entendesse.
Partindo disso, nasceu London Calling, um dos discos mais
conceituais e fundamentais não só da história do rock n' roll, mas da música de
um modo geral.
A associação do disco como algo clássico já começa antes
mesmo de se dar o play. A capa, que tem Paul Simonon arremessando seu baixo no
chão, faz lembrar a capa do não menos clássico Elvis Presley, de 1956.Alem de
ser uma síntese, a banda chutava o pau da barraca no que dizia a respeito de
ser independente e fazer o que bem entendesse.
"London Calling", apesar de ser um hino do punk, sua levada
faz o ouvinte ter uma certeza: O Clash estava anos luz à frente de seu tempo.
As guitarras ritmadas em contratempo, o baixo bem marcado e a bateria de certo
modo, dançante, fazem remeter a coisas muito posteriores criadas no rock alternativo,
fato incontestável.
"Clampdown", traz como
base o punk rock, de três acordes mesmo. Embora, a sua parte mais interessante
seja o verso inicial, com o baixo em ritmo quase cavalar e a sequência de
acorde em uma espécie de fade-out, dando aquele tom clássico de músicas de fins
de um tempo.
"Hateful", é uma das melhores peças não só desse álbum, mas como
de toda a carreira da banda.
Em todo caso, London Calling foi muito além apenas do punk,
do rock alternativo e do pop. A banda faz uma espécie de viagem à Jamaica, se
aventurando por estilos como o reggae e o ska, como na animadíssima "Revolution
Rock", que apesar do nome, é um reggae, seu ritmo alegre e sua letra que faz uma
espécie de apresentação a essa nova batida.
Aliás, variedade de estilos é o que mais chama a atenção no
álbum. Punk, reggae, rockabilly, bebop, ska, R&B, pop, lounge jazz, hard
rock e baladas: isso tudo em 19 faixas emocionantes. Começa com a já citada e apocalíptica
e hipnótica faixa título, que abre mão do usual verso/refrão/verso ao optar por
uma melodia circular forte e impactante. Na seqüência, o rockabilly “Brand New
Cadillac", versão para uma canção dos anos 60, de Vincy Taylor. A próxima,
"Jimmy Jazz", é um bebop,enquanto o reggae "Rudie Can’t
Fail" elogia os jovens que batalharam por seus sonhos nos 60 lutando
contra os velhos que os oprimiam. A empolgante "Spanish Bombs" fala
sobre a guerra civil espanhola enquanto "The Right Profile" conta o
desespero de ser gay na Hollywood dos anos 50 em clima jazz cabaré.
A ótima e ácida "Lost in The Supermarket" tem
uma bateria marcada tipo la “house music” , para falar, com fina ironia, sobre
a alienação e solidão das grandes cidades. "Clampdown" é rock de
arena, tanto na melodia quanto na letra. A letra pede para que os jovens não
vendam seus sonhos para o mundo frio do capitalismo, enquanto a música é
cantada em forma de corrida militar em que os soldados (trabalhadores) se
alternam em frases-respostas para o sargento (vocalista). "The Guns of
Brixton", única música de Paul Simonon no disco, é reggae pesado e denso.
A roqueira "Death or Glory" é o tipo de música em que o título fala por
si só, fazendo alusão aos músicos que diziam que iriam morrer antes de ficarem
velhos. "The Card Cheat" lembra Phil
Spector entupido de dramaticidade, enquanto "Lover’s Rock" é doce e
pop. Para o final, o single não transcrito nem na capa nem no encarte que não
iria entrar no disco porque soava tão pop que poderia assustar os punks. Acabou
entrando no álbum de última hora, quando a arte do disco já estava toda pronta:
"Train in Vain", uma deliciosa balada pop que bateu o numero 23 da
parada de singles norte-americana, feito surpreendente para uma canção de
origem punk.
Se fosse preciso escolher os melhores discos como a obras primas pop de todos os tempos, este seria um dos eleitos.
London Calling recebeu tantas criticas positivas que, em
2007, foi introduzido ao Grammy Hall of Fame, uma coleção de gravações de
grande qualidade ou relevância histórica. Vale a pena ouvir.
Em suma, London Calling faz uma expedição por vários
estilos, imprimindo vários tipos de sons e levando suas letras muito além da
simples sede pelo protesto. Ou seja, como já foi dito anteriormente, é um disco
fundamental não só do rock. É fundamental para os apreciadores da boa música.
O ano é 1986 e os Titãs tentavam superar problemas porque um de seus vocalistas, Arnaldo Antunes,
e o guitarrista, Tony Beloto, haviam sido presos por envolvimento em heroína.
Isso sem dúvida alguma teve influencia direta nas músicas.
Abril de 86, os Titãs entram no estúdio Nas Nuvens, no Rio
de Janeiro para gravar o que seria um clássico, um marco do rock no Brasil:
"Cabeça dinossauro", com sonoridade e temática pesadas,diretas e objetivas o que era de
certa forma incomum no rock nacional até então.
"Igreja", "Porrada",
"Dívidas", "Bichos escrotos", o disco era pancada atrás de
pancada . A única faixa que amenizava o tom era “Família”, o resto fazia jus a capa do disco,
que trazia um homem urrando(esboço de uma pintura do italiano Leonardo Da Vinci).
O álbum fazia trazia referências ao episódio de prisão dos integrantes como
"Estado violência" e o clássico "Polícia" ("Polícia
para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia"). Das 13 faixas do álbum, 11 foram muito bem executadas em
rádios - como únicas exceções as faixas "A Face do Destruidor" e
"Dívidas".
"Bichos Escrotos" acabaria sendo vetada a para
audiência em rádios por causa da expressão "Vão se foder!".
"Cabeça dinossauro" fez uma revolução na música
brasileira, ninguém tinha feito ainda algo tão pesado e demolidor. O Brasil
nunca tivera letras tão diretas e, mais que isso, o disco conseguiu um alto
índice de vendas.
"Cabeça Dinossauro", é sem dúvida o mais primal,
selvagem, brutal e pesado disco da história do Rock brasileiro. Seu peso não
advém de distorções gravíssimas de guitarras ou bateria hipersônica; soa como
uma captação do que o ser humano pode produzir de mais pré-histórico em forma
de música moderna, e com uma lírica áspera e violenta feita a sonoridade: os
Titãs atacavam abertamente pilares considerados sagrados pela sociedade, como a
Igreja, o Estado, a Segurança Pública, a família, o sistema bancário... A
destruição que o homem causa ao seu próprio planeta também era atacada
abertamente, em uma crítica que soa terrivelmente atual até hoje, em todas as
suas músicas. Nenhuma perdeu o valor de crítica.
É impossível falar em "Cabeça Dinossauro" e Titãs sem citar o produtor Liminha, que foi fundamental para a sonoridade do álbum.O produtor que produziu diversos trabalhos dos Titãs teve uma grande importância na historia da banda, e durante muito tempo foi considerado o nono Titã.
Algumas curiosidades envolvem muitas dessas músicas. "O
Quê", por exemplo, foi a última ser gravada, devido às imensas
dificuldades encontradas pela banda,
e foi também a que mais deu trabalho. O arranjo mudou totalmente no estúdio e o
Liminha, teve participação decisiva: programou a bateria eletrônica,
sugeriu a linha de baixo, tocou guitarra e deixou os músicos fazendo uma jam
interminável durante dois dias até chegar ao resultado final.
Nos shows o até então vocalista Arnaldo Antunes se retirava do palco durante a execução da musica "Igreja". Ele dizia ter religião e não concordava com o teor da música;
ele não aparece no videoclipe da música e se retirava silenciosamente do palco
cada vez que a música era executada.
Outra curiosidade diz respeito à gravação de
"Polícia". O próprio Sérgio Britto explica: "Outro detalhe
curioso, é que gravei a voz solo de 'Polícia' no primeiro take, enquanto o
Liminha conversava sobre pesca submarina com o Evandro Mesquita. Talvez isso
tenha me ajudado a ficar mais puto ainda e descarregar a raiva durante o vocal. Quando fomos ouvir o resultado, eu
queria regravar a voz, a qualquer custo, porque tinha sido muito fácil. Mas
todos acabaram me convencendo de que estava bom", explicou o tecladista e
vocalista.
O disco marcou o auge dos Titãs na cena roqueira e pode-se
afirmar com toda convicção que depois de "Cabeça dinossauro", o rock
brasileiro nunca mais foi o mesmo.