quinta-feira, 15 de maio de 2014

Dica de Filme - Até o fim.

Até o fim colecionou indicações a prêmios para o seu único ator em cena, Robert Redford, e todo e qualquer prêmio a que tenha sido indicado/ganhado , foi merecido.

 O filme começa com um monólogo em tom de despedida e um objeto flutuando no meio do mar de Sumatra. A trama volta para oito dias antes e estamos com um envelhecido e fora de forma Robert Redford dentro do seu veleiro, que se chocou com um contêiner flutuante perdido de algum navio de carga e está com um rombo no casco. A água está invadindo o barco aos poucos, danificando muitos objetos de comunicação, e o contêiner está preso ao buraco que abriu na embarcação.

Sozinho, o personagem consegue desgarrar o barco do objeto mas há milhares de problemas que ainda estarão por vir: o buraco precisa ser selado; ele está incomunicável no meio do oceano sem saber para onde está indo e travará uma batalha pela sobrevivência – que parece estar perdida de antemão – quando o veleiro é atingido por uma tempestade que se aproxima. Com o naufrágio do barco, o personagem ficará ainda mais perdido no mar, dentro de um bote salva vidas, enquanto é castigado pelo sol e pela força da natureza. À medida que o filme avança, vão se esvaziando todas as esperanças – incluindo a dos espectadores estarrecidos -, a começar com a falta de água potável, a falta de comida, o cerco dos tubarões ao bote e com todos os perigos que o mar oferece. Pior: vibramos com a chegada de dois navios por perto, mas o personagem é invisível às embarcações que trafegam pelas rotas próximas e está se afastando cada vez mais delas.

Filmes de náufrago não são novidade no cinema. A diferença é que aqui praticamente não há diálogos (após o monólogo inicial, o segundo diálogo só vem vinte minutos depois com um pedido de socorro e em seguida, a próxima palavra só será proferida a partir de uma hora) o que faz o filme se aproximar mais do” Náufrago”, com Tom Hanks, no seu desenvolvimento, do que de outros filmes – com a diferença que aqui não temos uma bola de vólei como companhia para o martírio do personagem.

Com uma trilha sonora excelente e eficiente, Até o fim traz uma direção bem calibrada mas que não teria o impacto que tem sem a afiada atuação de Robert Redford, que segura o filme do começo até o final. É uma das melhores atuações de sua carreira, sem dúvidas. Apesar de praticamente não falar, Redford consegue passar sua agonia e desespero com grande verdade, seja nas rugas da idade ou na expressão de resignação, seja no seu esforço físico visível ou na fisionomia de quem não aguenta mais lutar. O fato de estar velho parece adicionar, aliás, um fator importante à trama: toda a atividade no veleiro exige um esforço monumental, como mostrado na luta contra a tempestade que o leva facilmente a exaustão – e quase o mata. Assim, para sobreviver, ele precisa brigar não apenas com a natureza, mas com o destino trágico que o cerca, com o acaso, com a imprevisibilidade do mar, com a solidão, com a própria embarcação que está agonizando prestes a afundar – e, claro, com seu próprio corpo -, o que faz de sua jornada um completo exercício de superação.

O paralelo com o sucesso de 2013, Gravidade, é inevitável. A  essência dos personagens, é a mesma. Se temos na ficção espacial Sandra Bullock perdida na solidão do espaço e desesperada para voltar para casa, aqui temos Redford perdido no meio do oceano, igualmente sozinho e em condições desesperadoras. Qualquer uma das duas situações é aterradora. Ambos aprendem, improvisam, pensam em desistir, contam com um pouco de sorte de última hora, mas, movidos pela fé ou por uma força maior, seguem adiante.
São filmes que nos revelam surpresas sobre o espírito humano, nossa coragem, força, luta e superação dos nossos próprios limites. Aqui o roteiro limpo e simples se sai um pouco melhor nos detalhes do que no filme de Sandra. Ele não usa o personagem para explicar a plateia o que ele faz em cena com palavras – ele traduz tudo em imagens muitas vezes silenciosas, melancólicas, num trabalho extremamente peculiar. Reparem: ao perceber a falta de água, ele improvisa; ao ver um navio se aproximar, ele se revela 
esperançoso em uma fisionomia, que se desfaz logo em seguida ao perceber que não é notado na imensidão azul; o monólogo do começo vira a carta dentro de um pote para quem a encontrar, já que é o momento em que o personagem está entregando os pontos, etc.

Há um ou outro ponto baixo – como no momento em que ele está no bote salva-vidas durante uma tempestade e a confusão da montagem é tão grande que não dá para entender o que está se passando com o personagem. E o final, sem epílogo e meio abrupto, pode não agradar e não ser unanimidade entre os espectadores.

Fica a dica...Filmaço!


AQUI o link de download do torrent

London Calling - The Clash

No final dos anos 70, o punk era um estilo popular, mas ao mesmo tempo era  rejeitado pelos "entendidos" de música. Aliás, tradicionalmente falando, sempre foi assim. O hard rock farofa dos anos 80 também era massacrado, bem como o grunge na década seguinte.
 

O argumento de quem não gostava do gênero, era a falta de criatividade do punk que sempre se resumia em três ou quatro acordes e em alguns casos até o fato de empresários dizerem o que a banda deveria tocar e como ela deveria agir.
Provavelmente por causa dessa herança, o Clash, que já havia lançado dois discos até então, optou pela liberdade de escrever o que quisesse e tocar suas músicas como bem entendesse.
Partindo disso, nasceu London Calling, um dos discos mais conceituais e fundamentais não só da história do rock n' roll, mas da música de um modo geral.
A associação do disco como algo clássico já começa antes mesmo de se dar o play. A capa, que tem Paul Simonon arremessando seu baixo no chão, faz lembrar a capa do não menos clássico Elvis Presley, de 1956.Alem de ser uma síntese, a banda chutava o pau da barraca no que dizia a respeito de ser independente e fazer o que bem entendesse.

"London Calling", apesar de ser um hino do punk, sua levada faz o ouvinte ter uma certeza: O Clash estava anos luz à frente de seu tempo. As guitarras ritmadas em contratempo, o baixo bem marcado e a bateria de certo modo, dançante, fazem remeter a coisas muito posteriores criadas no rock alternativo, fato incontestável.

"Clampdown",  traz como base o punk rock, de três acordes mesmo. Embora, a sua parte mais interessante seja o verso inicial, com o baixo em ritmo quase cavalar e a sequência de acorde em uma espécie de fade-out, dando aquele tom clássico de músicas de fins de um tempo.
"Hateful", é uma das melhores peças não só desse álbum, mas como de toda a carreira da banda.
Em todo caso, London Calling foi muito além apenas do punk, do rock alternativo e do pop. A banda faz uma espécie de viagem à Jamaica, se aventurando por estilos como o reggae e o ska, como na animadíssima "Revolution Rock", que apesar do nome, é um reggae, seu ritmo alegre e sua letra que faz uma espécie de apresentação a essa nova batida.
Aliás, variedade de estilos é o que mais chama a atenção no álbum. Punk, reggae, rockabilly, bebop, ska, R&B, pop, lounge jazz, hard rock e baladas: isso tudo em 19 faixas emocionantes. Começa com a já citada e apocalíptica e hipnótica faixa título, que abre mão do usual verso/refrão/verso ao optar por uma melodia circular forte e impactante. Na seqüência, o rockabilly “Brand New Cadillac", versão para uma canção dos anos 60, de Vincy Taylor. A próxima, "Jimmy Jazz", é um bebop,enquanto o reggae "Rudie Can’t Fail" elogia os jovens que batalharam por seus sonhos nos 60 lutando contra os velhos que os oprimiam. A empolgante "Spanish Bombs" fala sobre a guerra civil espanhola enquanto "The Right Profile" conta o desespero de ser gay na Hollywood dos anos 50 em clima jazz cabaré.

 A ótima e  ácida "Lost in The Supermarket" tem uma bateria marcada tipo la “house music” , para falar, com fina ironia, sobre a alienação e solidão das grandes cidades. "Clampdown" é rock de arena, tanto na melodia quanto na letra. A letra pede para que os jovens não vendam seus sonhos para o mundo frio do capitalismo, enquanto a música é cantada em forma de corrida militar em que os soldados (trabalhadores) se alternam em frases-respostas para o sargento (vocalista). "The Guns of Brixton", única música de Paul Simonon no disco, é reggae pesado e denso. A roqueira "Death or Glory" é o tipo de música em que o título fala por si só, fazendo alusão aos músicos que diziam que iriam morrer antes de ficarem velhos. "The Card Cheat" lembra  Phil Spector entupido de dramaticidade, enquanto "Lover’s Rock" é doce e pop. Para o final, o single não transcrito nem na capa nem no encarte que não iria entrar no disco porque soava tão pop que poderia assustar os punks. Acabou entrando no álbum de última hora, quando a arte do disco já estava toda pronta: "Train in Vain", uma deliciosa balada pop que bateu o numero 23 da parada de singles norte-americana, feito surpreendente para uma canção de origem punk.

 Se fosse preciso escolher os  melhores discos como a obras primas  pop de todos os tempos, este seria um dos  eleitos.
London Calling recebeu tantas criticas positivas que, em 2007, foi introduzido ao Grammy Hall of Fame, uma coleção de gravações de grande qualidade ou relevância histórica. Vale a pena ouvir.


Em suma, London Calling faz uma expedição por vários estilos, imprimindo vários tipos de sons e levando suas letras muito além da simples sede pelo protesto. Ou seja, como já foi dito anteriormente, é um disco fundamental não só do rock. É fundamental para os apreciadores da boa música.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Clássicos do Rock Nacional; Cabeça Dinossauro - Titãs.

O ano é 1986 e os  Titãs tentavam superar problemas  porque um de seus vocalistas, Arnaldo Antunes, e o guitarrista, Tony Beloto, haviam sido presos por envolvimento em heroína. Isso sem dúvida alguma teve influencia direta nas  músicas.

Abril de 86, os Titãs entram no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro para gravar o que seria um clássico, um marco do rock no Brasil: "Cabeça dinossauro", com sonoridade e temática pesadas,diretas e objetivas o que era de certa forma incomum no rock nacional até então.

"Igreja", "Porrada", "Dívidas", "Bichos escrotos", o disco era pancada atrás de pancada . A única faixa que amenizava o tom era  “Família”, o resto fazia jus a capa do disco, que trazia um homem urrando(esboço de uma pintura do  italiano Leonardo Da Vinci).

O álbum fazia trazia  referências  ao episódio de prisão dos integrantes como "Estado violência" e o clássico "Polícia" ("Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia"). Das 13 faixas do álbum, 11 foram muito bem executadas em rádios - como únicas exceções as faixas "A Face do Destruidor" e "Dívidas".
"Bichos Escrotos" acabaria sendo vetada a para audiência em rádios por causa da expressão "Vão se foder!".
"Cabeça dinossauro" fez uma revolução na música brasileira, ninguém tinha feito ainda algo tão pesado e demolidor. O Brasil nunca tivera letras tão diretas e, mais que isso, o disco conseguiu um alto índice de vendas.

"Cabeça Dinossauro", é sem dúvida o mais primal, selvagem, brutal e pesado disco da história do Rock brasileiro. Seu peso não advém de distorções gravíssimas de guitarras ou bateria hipersônica; soa como uma captação do que o ser humano pode produzir de mais pré-histórico em forma de música moderna, e com uma lírica áspera e violenta feita a sonoridade: os Titãs atacavam abertamente pilares considerados sagrados pela sociedade, como a Igreja, o Estado, a Segurança Pública, a família, o sistema bancário... A destruição que o homem causa ao seu próprio planeta também era atacada abertamente, em uma crítica que soa terrivelmente atual até hoje, em todas as suas músicas. Nenhuma perdeu o valor de crítica.

É impossível falar em "Cabeça Dinossauro" e Titãs  sem citar o produtor Liminha, que foi fundamental para a sonoridade do álbum.O produtor que produziu diversos trabalhos dos Titãs teve uma grande importância na historia da banda, e durante muito tempo foi considerado o nono Titã.


Algumas curiosidades envolvem muitas dessas músicas. "O Quê", por exemplo, foi a última ser gravada, devido às imensas dificuldades encontradas pela banda, e foi também a que mais deu trabalho. O arranjo mudou totalmente no estúdio e o Liminha, teve participação decisiva: programou a bateria eletrônica, sugeriu a linha de baixo, tocou guitarra e deixou os músicos  fazendo uma jam interminável durante dois dias até chegar ao resultado final.
Nos shows o até então vocalista Arnaldo Antunes se retirava do palco durante a execução da musica "Igreja". Ele  dizia ter religião e não concordava com o teor da música; ele não aparece no videoclipe da música e se retirava silenciosamente do palco cada vez que a música era executada.
Outra curiosidade diz respeito à gravação de "Polícia". O próprio Sérgio Britto explica: "Outro detalhe curioso, é que gravei a voz solo de 'Polícia' no primeiro take, enquanto o Liminha conversava sobre pesca submarina com o Evandro Mesquita. Talvez isso tenha me ajudado a ficar mais puto ainda e descarregar a raiva durante o vocal. Quando fomos ouvir o resultado, eu queria regravar a voz, a qualquer custo, porque tinha sido muito fácil. Mas todos acabaram me convencendo de que estava bom", explicou o tecladista e vocalista.



O disco marcou o auge dos Titãs na cena roqueira e pode-se afirmar com toda convicção que depois de "Cabeça dinossauro", o rock brasileiro nunca mais foi o mesmo.

domingo, 4 de maio de 2014

Nevermind - Nirvana


Nevermind talvez tenha sido o último clássico indiscutível do rock. E o curioso é que ele foi produzido sem nenhuma pretensão de sequer fazer sucesso. Hoje, vinte e três anos após o lançamento do disco, é possível notar nitidamente a proporção que este álbum tomou.

Em 24 de setembro de 1991, o Nirvana lançava o seu segundo disco, Nevermind,o  álbum é até hoje tido como um dos maiores discos de rock de todos os tempos, e responsável pelo que muitos dizem ser a última grande revolução do rock. Hoje é impossível contar a historia do rock sem reservar um capitulo a Nevermind, e é impossível negar a influência que ele tem até hoje, não só na música, mas no estilo de vida de toda uma geração.

Produzido por Butch Vig, esse foi o primeiro gravado com o baterista Dave Grohl. As letras, todas compostas pelo cantor, e líder Kurt Cobain, eram violentas, radicais, e falavam de temas obscuros como paranóia, e sobre apatia da sua própria geração. Como diria o próprio Cobain, era sobre "Ser de classe média, casar jovem, ter filhos, assistir TV toda noite - e detestar tudo isso".

O álbum começa com Smells Like Teen Spirit, o grande hit do disco e da banda, com seu riff simples de guitarra, e o vocal solitário de Kurt acompanhado pelo baixo de Krist Novoselic. A música segue crescendo até o refrão, quando explode, e Cobain grita toda a sua revolta, e expurga todos os seus sentimentos contra a futilidade de uma geração alienada.
Come As You Are é a terceira faixa, certamente a canção que introduziu o Nirvana no mundo de muita gente. Particularmente, é uma das minhas  preferidas.
Breed, com seu riff chumbado, solo sujo e ritmo alucinado, é das músicas mais empolgantes de Nevermind, enquanto Territorial Pissings é um visceral e inesquecível momento de fúria em forma de música (Kurt destruindo sem piedade sua garganta).
Lithium é a principal representante da dinâmica verso-tranquilo-refrão-porrada que ficou tão associado à banda. Sempre achei isso meio equivocado e superficial, não creio que tal fórmula apareça tão recorrentemente na discografia do grupo. Mas era sem dúvida uma carta na manga de Kurt.
Drain You, Lounge Act e On A Plain são as que com mais inspiração fazem valer a estética punk rock de música com poucos acordes.
Tem também faixas mais tranqüilas como Polly e Something in the Way, essa última que falava dos tempos difíceis que Kurt viveu debaixo da ponte.

 Mas a grande sacada do álbum é a capacidade que Cobain tem de misturar o som de bandas alternativas como Sonic Youth e Pixies com um toque pop, criando músicas que são autênticas,  poderosas e com  refrãos fáceis de assimilar.
Nevermind vendeu mais de 35 milhões de unidades, Smells Like Teen Spirit chegou  ao topo das paradas, desbancando artistas como Michael Jackson e Guns N’ Roses, Madonna e U2. E mais do que isso, o Nirvana provou com seu Nevermind, que uma banda “alternativa” podia chegar ao mainstream, e revolucionou não só o rock, que estava cansado das bandas de “metal farofa” dos anos 80, com seus cabelos enormes e cheios de maquiagem, mas sim toda a indústria musical, que começou a ir atrás de bandas independentes, que agora tinham um espaço garantido nesse meio. Também abriu portas para o sucesso de bandas como Pearl Jam e Soundgarden,Alice in Chains. E colocou Kurt Cobain como um porta-voz dessa geração.


20 anos depois, o Nevermind, o Nirvana, e seu líder se tornaram lenda. Hoje em dia, principalmente com advento da internet, a música independente ganhou muito mais espaço. Mas não há dúvidas, que, mesmo não tendo sido a primeira, talvez nem a mais importante banda alternativa, sem o Nirvana, a música de hoje em dia não seria a mesma. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Clássicos do Rock Nacional; Dois - Legião Urbana

Sempre fui apaixonado por rock nacional, especialmente das bandas que surgiram nos anos 80/90. Lembro-me do primeiro disco adquirido (presente da minha mãe), Radio Pirata ao Vivo/RPM, Lançado em 1986 e foi  febre naquela época...Tocou pra caramba e vendeu mais ainda. Devido a explosão do rock nacional foi apenas questão de tempo conhecer; Titãs, Ira!, Legião, Paralamas, Engenheiros, Uns e Outros, Nenhum de Nós, Barão Vermelho, Kid Abelha, Heróis da Resistência, Capital, Ultraje à Rigor...
Como em todo movimento musical foi produzido muita música de qualidade e outras nem tanto. Acredito que o que tinha conteúdo e foi relevante permaneceu através do tempo, independente da continuidade das bandas.
A partir de hoje vou tentar fazer um post semanal dedicado aos álbuns considerados clássicos do rock Brazuca.
Pra começar escolhi o álbum “Dois” da Legião Urbana.

O primeiro e (ótimo) trabalho da Legião foi em 1984 e trazia fortes influências do punk e new wave, emplacou sucessos como, Será , Ainda é cedo, Por enquanto...  Porém a consagração viria mesmo com o segundo disco da banda, DOIS, lançado em 1986.

O disco abre com uma gravação ao vivo do trecho final da música “Será”, porém as semelhanças com o primeiro disco param por aí, Dois tem um  clima folk, e com muitas músicas com arranjo semi-acústico em boa parte do álbum.

Daniel na cova dos leões é a segunda “entregada” de Renato Russo sobre sua opção sexual; já em Soldados, do primeiro LP, ele indiretamente mostrava o que se tornaria explícito em  Meninos e meninas de 1989: sua homossexualidade. Daniel..., mostra claramente os conflitos de Renato: “Aquele gosto amargo do seu corpo [...] De amargo então, salgado ficou doce”.

Quase sem querer é um dos hits deste disco, letra triste, melancólica e poética, tudo misturado num arranjo folk inesquecível já na primeira audição.
Acrilic on Canvas evidenciam a influência de bandas como 
Joy Division e New Order. A letra é obscura e mórbida, porém a levada do baixo acompanhadas de teclados casaram bem com o  clima dark da canção.

Eduardo e Mônica foi feita em 1982 e diz a história que  é baseada no caso do antigo produtor executivo da Legião, Rafael Borges, e sua esposa na época . Essa também foi hit absoluto.
Central do Brasil, que possui apenas arranjo instrumental, cria um clima triste e melancólico.

Tempo Perdido talvez tenha a introdução mais conhecida do rock nacional. Nessa faixa  a voz de Russo lembra Morrissey (a maneira que Renato dançava no palco era nitidamente influenciada pelo líder dos Smiths) ,a letra é linda e o final clássico. Logo depois há outro instrumental.
Metrópole lembra a fase  punk da banda.  Dizem que a letra foi amenizada, pois a original era mórbida e suicida.

Música Urbana 2 possui um tom obscuro e uma levada blues.  O número “2” é devido ao fato de o Capital Inicial ter lançado uma música homônima no seu primeiro LP de 1986, com participação de Renato na composição da letra.
Andréa Doria é outra música triste, onde é tratado o tema da separação. Renato está incisivo: “Mas percebo agora que o teu sorriso vem diferente, quase parecendo te ferir”, para concluir de maneira resignada e melancólica: “Nada mais vai me ferir. É que eu já me acostumei, com a estrada que eu segui com minha própria lei”. Deprê total.
Fábrica mostra uma Legião gritante para os problemas sociais, Renato Rocha tocando um baixo exuberante.
Em seguida, Plantas Embaixo do Aquário,  uma das mais estranhas composições da carreira da Legião , ela é bem repetitiva, tendo na verdade poucos versos que não pertencem ao refrão, além de frases em inglês e francês. A letra soa mais como um aviso; Não deixe a guerra começar...
Por fim, Índios, tem um ciclo interessante; o teclado vai subindo juntamente com a voz de Renato, dando a impressão de que um coro inteiro de “índios” canta junto; o refrão figura entre os mais bonitos já compostos por Renato e o final, só com violão e um efeito, é perfeito.


Uma curiosidade; inicialmente, a ideia do grupo era lançar um álbum duplo que se chamaria: “Mitologia e Intuição”, mas a gravadora vetou o projeto, e Dois acabou sendo uma espécie de “catado” das faixas registradas para o projeto original.



Após este disco a Legião lançaria “Que pais é este” retomando a linha punk da banda. Portanto,  Dois torna-se um disco que fecha o ciclo juvenil e inocente da banda, apontando para novos caminhos e novas possibilidades. Além disto, é um dos discos com mais hits juntos que já ouvi.

sábado, 26 de abril de 2014

Hannibal,a série.

Me lembro quando  assisti o filme “O silêncio dos inocentes”. É inegável o apelo de uma trama onde o herói é um assassino, um anti-herói. Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins, ajudou o FBI capturar um predador igual a ele, mas estava faltando algo. O que motivou Hannibal a abandonar a civilidade e a moral? Quem ele foi antes de se transformar em um matador “profissional”?Os anos se passaram e outros filmes surgiram, muitos inspirados na mesma ideia. Apesar de algumas partes serem elucidadas, a sensação era de que faltava algo... Hannibal vem pra preencher as lacunas.


O Hannibal Lecter dos filmes mostrou uma frieza imensa. Ele matou e devorou vítimas. Ele ganhou vida pela interpretação marcante de Anthony Hopkins. Mas o tempo passa e, infelizmente, o ator não mais voltou a viver Lecter.
Mas errou quem pensava que a franquia estivesse tão morta quanto as vítimas de Lecter..

A série  reúne um elenco competente e uma equipe de produção absolutamente dedicada em comprovar que o canibal não havia interrompido seu caminho. Com muita competência e um gosto pelo macabro, a nova série surgiu para mostrar-nos o passado de Lecter e seu principal “amigo”, Will Graham.
Hannibal é um assassino e isso não é privado do público. Desde o começo a verdadeira face dele é exposta, o que poderia resultar em uma trama rasa ou abordada de forma equivocada, mas isso não acontece em momento algum. Muito pelo contrario!

Por se tratar de forma pertinente do início turbulento do relacionamento de Graham e Lecter, a trama precisaria de algo mais que mortes violentas para se sustentar. Sem a inteligência de um enredo bem amarrado e de atores/roteiristas/produtores/diretor capazes de mergulhar no sangue, talvez a trama não fosse tão boa.
Voltando à dupla responsável pelo entrelaçamento das tramas: Will e Hannibal. Will Graham (Hugh Dancy) é um professor do FBI dotado da capacidade de entrar na mente dos assassinos. Ele não só reconstrói a cena de um crime, ele passa a ser o assassino por alguns minutos(interessante,não?).
Esse talento não passou em branco. Jack Crawford (Laurence Fishburne) é o encarregado do Departamento de Ciências Comportamentais do FBI e recruta Will para que trace os perfis de matadores. É aí que Will demonstra conhecer tanto de serial killers quanto eles mesmos. É aí que seus talentos chamam a atenção de Lecter (Mads Mikkelsen).

A admiração de Lecter por Will é mostrada desde o início da série. A inteligência de Will trouxe à tona um sentimento que Hannibal não “sentia” há muito tempo: a admiração por alguém. Deste modo, os dois vão estreitando uma amizade baseada na confiança. Esses laços ficam ainda mais fortes quando o psiquiatra passa a aconselhar(influenciar) Will informalmente. Também esse é um meio sutil de obter maiores informações sobre a mente por trás do caçador de serial killers. Claro que o canibal irá tirar algum proveito de seu conhecimento sobre o maior especialista em assassinos do FBI. O entrelaçamento das tramas paralelas  dá um dinamismo muito bom e reforça a narrativa, além de evitar que a série caia no erro de só manter-se com foco nos assassinatos.

Alguns pontos sobre as motivações dos serial killers também são bem abordados, fato que aumenta a credibilidade dos acontecimentos. É visível a pesquisa sobre o comportamento de assassinos.
Em"Hannibal" podemos ver as mais elaboradas mortes que a mídia televisiva já produziu. Não só o personagem principal demonstra usar arte para matar, mas outros matadores surgem, plenos de maldade e uma criatividade como há muito não via.

Entretanto, novamente a produção da série surpreende ao não abusar da exposição da degradação humana pelo simples apelo que isso tem. Há uma complexa teia tecida entre as mortes e as motivações. Os flashbacks são magníficos, elucidando para o espectador o quanto o mal pode ser gratuito em algumas situações, porém complexo em outras.

No meio dessa tsunami de sangue está Will Graham. O colaborador do FBI é, indubitavelmente, o mais afetado por todas essas mortes, principalmente quando consideramos que ele é forçado a reviver cada uma dessas atrocidades. Poucos permaneceriam sãos diante de tal carga emocional. 


sábado, 19 de abril de 2014

Ten / Pearl Jam.

 Ten,  álbum de estreia do Pearl Jam  ao lado de Nevermind  do Nirvana são considerados os álbuns mais importantes do movimento grunge .  Ambos lançados na segunda metade do ano de 1991 colocaram a cidade de Seattle no mapa da música mundial.

   Poucas vezes uma cidade ficou tanto em evidência por conta de um “movimento” musical que apresentou ao mundo bandas como Alice in Chains, Mudhoney, Stone Temple Pilots, Soundgarden, The Melvins e as duas bandas que considero como as maiores representantes do movimento Grunge; Nirvana e Pearl Jam.
Ao contrário do que muita gente pensa, “Ten” foi lançado antes de Nevermind  , mas demorou bastante para tomar fôlego e atingir as vendagens astronômicas que atingiu.
 O Pearl Jam passou a ser a banda da vez numa super exposição avassaladora.

Diz a história que Eddie Vedder, recebeu quase todas as canções de “Ten” numa fita cassete ainda fora de Seatlle e foi  responsável por todas as letras do disco e também por algumas partes das composições musicais dividindo a maioria do trabalho com o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament. 
 O clima denso de "Once" abre o álbum explodindo num rock daqueles pra ninguém colocar defeito.
 Na sequência vem duas bombas que levantam multidões sempre que tocadas, as clássicas "Even Flow" e "Alive" . "Even Flow" tem uma característica técnica muito sútil que dá um charme na voz. Existem uns overdubs de vozes mais graves com uma espécie de reverb em cima das vozes principais. Dá um efeito interessante e um ar climático na vocalização da música. Bote no fone e preste atenção que está lá!

Em seguida "Why Go" com seu começo pulsante com bateria seguida de excelentes guitarras. Uma pedrada!
"Black" (lindíssima canção) mostra a faceta mais calma do Pearl Jam com uma belíssima letra.

"Jeremy" ficou eternizada pelo clip da criança perturbada na sala de aula. Parecia prever o que aconteceria num futuro próximo, com massacres dentro de escolas e tiroteios por motivos obscuros. “Hoje, Jeremy falou na sala de aula”. Poderia ser trilha sonora para documentários de tragédias do tipo que aconteceram em Columbine.  Isso também há 23 anos, quando ninguém sabia o que significava o termo “bullying”.
"Oceans", com instrumentais cheios de texturas é mais uma que começa num clima mais lento, com levada bem calma da bateria e voz aveludada de Eddie Vedder coberta por um phaser interessante. Eddie Vedder diz ter feito a letra dessa música debaixo de chuva na ocasião em que ficou do lado de fora de um prédio durante um ensaio.

"Porch" é outra com detalhes técnicos interessantes com uma série de guitarras em reverse explodindo numa levada matadora. Recomendo assistir a versão que a banda fez dessa música num acústico gravado para a MTV em 92.
Resumindo, Ten é um álbum fantástico do começo ao fim.  Não há pontos baixos. Rock de primeira.
AQUI o link (torrent) de download do álbum.